Em 1517 o rio de Valência também "subiu acima das pontes" e entrou pela cidade.
As mortes provocadas por inundações contaram-se às centenas
Há mais de 500 anos, Valência, como agora, foi inundada e destruída pela força das águas. A tragédia foi comparada ao episódio bíblico da arca de Noé e as mortes contaram-se às centenas.
Marina Ferreira
Texto
31 out. 2024, 18:42

Universal Images Group via Getty
A tempestade dos últimos dias em Valência é descrita como a mais destruidora do século XXI, mas a História mostra que a província espanhola foi vítima, ao longo dos séculos, da força destruidora da água das chuvas torrenciais. A mais famosa e mortífera inundação ocorreu em Valência a 27 de setembro de 1517 e provocou o desabamento de centenas de casas e estruturas. As vítimas mortais contaram-se às centenas, não existindo registo de um número certo.
A cidade da costa oriental de Espanha estava em preparativos para uma semana de festividades para celebrar a chegada do novo rei, aquele que seria o futuro imperador Carlos V, como recorda o El Español. Crónicas de jornais antigas dão conta de uma chuva intensa que atingia a região durante mais de um mês. À chegada do novo monarca a Espanha, a 2o de setembro, a chuva deu tréguas, acontecimento que foi interpretado pelos valencianos como um bom presságio em relação ao futuro.
A antevisão falhou. A 27 de setembro, o rio Tura transbordou e provocou inundações em toda a cidade. José Ángel Núñez Mora, climatologista espanhol consultado pelo El Español, analisou documentos que registam a força da enchente que provocou o colapso de três das cinco pontes que existiam na cidade naquele tempo.
Outros arquivos da época conservam relatos em que se detalha que “veio o rio de Valência tão crescido, que subiu acima das pontes e entrou [na cidade]”. Outras localidades da região, como Sumacàrcer, Gavarda, Alzira ou Algemesí, também foram afetadas pelas chuvas torrenciais na mesma altura, tal como aconteceu nos últimos dias.
Em 2016, o jornal Las Provincias escreveu sobre o desastre de 1517, que nesse ano celebrava o seu 499º aniversário. Citou cronistas contemporâneos às inundações que se tornaram históricas pela sua dimensão. Davam conta da interpretação religiosa que muitos valencianos deram à tragédia natural. Consideraram-na uma “nova inundação universal de dimensões bíblicas“, comparando-a ao aviso de Noé.
Numa das crónicas consultadas relata-se que choveu quase quarenta dias seguidos, facto que era utilizado como paralelo ao episódio bíblico da arca de Noé, em que choveram “40 dias e 40 noites”. “A cidade tornou-se uma Babilónia de gritos e vozes, nascida daqueles que morreram afogados nas águas, e em baixo as casas que desabavam”, lê-se na crónica citada pelo jornal espanhol.
Do século XIV até ao século XVII, os valencianos projetaram obras com o objetivo de conter a força das águas e evitar que o rio Túria transbordasse de tempos a tempos. Em 1957, depois de 75% da cidade ficar submergida, começou a ser estudado o desvio do rio para evitar a repetição da tragédia. O rio Túria foi então desviado para o lado sul da cidade de Valência, com o antigo leito a ser utilizado atualmente como parque da cidade.
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O mar Mediterrâneo e o Atlântico Norte registaram temperaturas recorde durante o verão de 2024, pouco antes de a DANA atingir Espanha. Isso aumentou a quantidade de vapor de água na atmosfera e contribuiu para a intensidade da tempestade.
“Embora continue a ser incerto se, e de que forma, a frequência deste tipo de sistemas meteorológicos poderá mudar num clima mais quente, a comparação de simulações da mesma tempestade em condições mais frias e mais quentes permite estimar em que medida a tempestade se intensificou depois de se ter desenvolvido”, afirma o investigador do clima Markus Donat, que não é autor do estudo.
“No conjunto, este estudo constitui um contributo muito relevante para compreender os processos que amplificam episódios de chuva intensa num clima mais quente, empurrando-os para lá do limiar de um ‘evento extremo’ habitual e levando-os ao ponto de se tornarem desastres”.
Espanha: adaptação às alterações climáticas
Os investigadores defendem que o estudo sublinha a “necessidade imediata” de acelerar o desenvolvimento e a aplicação de medidas de adaptação às alterações climáticas, reforçando a resiliência urbana face à “ameaça crescente” de cheias na região do Mediterrâneo ocidental.
Espanha já anunciou planos para criar uma rede nacional de abrigos climáticos em edifícios públicos, para oferecer às pessoas refúgio do calor extremo antes deste verão.
O financiamento destes abrigos ficará a cargo do governo nas zonas onde as temperaturas escaldantes mais afetam o país, incluindo a Catalunha, o País Basco e Múrcia.
O governo confirmou ainda que irá financiar planos de prevenção de cheias em pequenas localidades, destinando adicionalmente 20 milhões de euros a planos de prevenção de incêndios, após os fogos recorde que reduziram a cinzas vastas áreas de floresta no ano passado.
