sexta-feira, 6 de agosto de 2010

PARTIDOS OBRIGAM...

TRISTES MEMÓRIAS... no centenário da republica
Nos últimos anos da Monarquia os votantes eram o dobro dos que podiam votar na 1ª república
A república é tendencialmente uma ditadura… que a maçonaria tenta mostrar “vestida” de democracia!
Mulheres só voltaram a VOTAR com... Salazar chefe da 2ª republica.


Quando morreu o presidente do futebol tiveram de deixar a mulher votar
Por António Simões
Januário Barreto morreu cedo mas como uma das grandes figuras do futebol. Beatriz Ângelo, a viúva, primeira médica a operar em Portugal, aproveitou buraco no diploma para votar nas Constituintes de 1911. Para isso teve de ir a tribunal – e depois do juiz decidir os republicanos blindaram a lei. Mulheres no desporto eram raras – apesar de campeão de esgrima fotografar algumas nuas... Em 1893, Januário Barreto e Bruno do Carmo eram da Casa Pia – e para lá levaram a ideia do jogo que viram a vários grupos por Belém. Falaram dela a Francisco Simões Margiochi, o provedor, e também ele se entusiasmou. Mandou vir de Londres, paga do seu bolso, uma bola a sério que entregou no Páteo das Malvas a Barreto – que nascera na Aldeia do Souto, Covilhã, e, órfão de pai, chegara à Casa Pia aos nove anos, em 1886. Com António do Couto, Pedro Guedes, Francisco dos Santos fez parte da equipa da Casa Pia que em em 1897 quebrou, histórica, a invencibilidade dos ingleses do Carcavelos. Não entrou na fundação do Sport Lisboa mas depressa aderiu ao projecto. Aliás, quando a Farmácia Franco passou a ser acanhada para tal, as reuniões do clube eram no seu consultório médico da Rua Nova de Almada. Por isso, foi sem surpresa que se tornou o primeiro presidente eleito do SL – e de lá saltou para a presidência da Liga Portuguesa de Futebol e da Sociedade Portuguesa de Promoção Física. Antes redigira as primeiras leis de arbitragem que se aplicaram aos Campeonatos de Lisboa – e como árbitro tornara-se referência «pela sua imparcialidade e pelo seu papel sempre conciliador».
Primeira médica a operar...
Carolina Beatriz Ângelo nasceu na Guarda, tal como Januário Barreto em 1877. Eram primos – e casaram-se em 1902. Foi no ano em que ambos concluíram o curso de medicina – e sob a direcção do professor Sabino Maria Teixeira Coelho, Carolina logo se tornou «a primeira mulher a operar no Hospital de S. José». Com Miguel Bombarda trabalhou no Hospital de Rilhafoles – e também foi a primeira especialista nacional em ginecologia. A militância política abriu-se algures por 1906 – quando ela e outras três médicas que Portugal tinha: Adelaide Cabete, Domitila de Carvalho, Emília Patacho e Maria do Carmo Lopes aderiram ao Comité Português da La Paix et le Désarmement par les Femmes. No ano seguinte foi iniciada na Maçonaria, na Loja Humanidade, com o nome simbólico de Lígia. Não mais baixou a guarda na defesa dos direitos da mulher, na defesa do Registo Civil, na luta contra a monarquia – através da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. Foi um dos símbolos da campanha a favor da discussão e aprovação da Lei do Divórcio pelo Parlamento em 1909 e colaborou com Adelaide Cabete na confecção da bandeira republicana desfraldada durante a revolução de 5 de Outubro. Esse foi sonho que Januário Barreto não viu transformar-se em realidade. Morreu ainda durante a monarquia – a 23 de Junho de 1910.
Absurdo, disse o juiz
Em Fevereiro de 1911 Carolina Ângelo liderou a delegação que entregou a Teófilo Braga, presidente do Governo Provisório, manifesto reivindicando o direito ao voto para mulheres pelo menos economicamente independentes. A petição foi atirada para o fundo de uma gaveta do ministério.
Aprovou-se, entretanto, a primeira Lei Eleitoral da República Portuguesa. Rezava que direito de voto tinham os «cidadãos portugueses com mais de 21 anos, que soubessem ler e escrever e fossem chefes de família». Como não especificava que os «cidadãos portugueses» teriam de ser obrigatoriamente homens, Carolina lançou pelo furo que descobriu na redacção a sua pretensão. Como sabia ler e escrever e era chefe de família «vivendo nessa qualidade com uma filha menor, a cujo sustento e educação provê com o seu trabalho profissional» requereu que o seu nome fosse incluído no recenseamento eleitoral em curso. Indeferiram-no – e ela recorreu para tribunal. A 28 de Abril de 1911, o juiz João Baptista de Castro, pai de Ana de Castro Osório, proferiu a sentença. Histórica: «Excluir a mulher (…) só por ser mulher (…) é simplesmente absurdo e iníquo e em oposição com as próprias ideias da democracia e justiça proclamadas pelo partido republicano. (…) Onde a lei não distingue, não pode o julgador distinguir (…) logo mando que a reclamante seja incluída no recenseamento eleitoral».
Recenseada com o n.º 2513, votou nas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte, a 28 de Maio de 1911. Não era só a primeira mulher a fazê-lo em Portugal, era a primeira mulher a fazê-lo em qualquer outro país do sul da Europa. Foi na Assembleia Eleitoral de Arroios, instalada no Clube Estefânia – e nem sequer guardou segredo o seu voto foi para Afonso Costa, Bernardino Machado e Magalhães Lima, candidatos do Partido Republicano Português pelo Círculo Oriental de Lisboa. Os nus do campeão de esgrima
Beatriz Ângelo votou – e em 1911 também Carolina Michaelis de Vasconcelos, nascida em Berlim, mas portuguesa por casamento com um musicólogo, tornou-se a primeira mulher a dar aulas na Universidade de Coimbra. Bem mais agitadoras e ousadas, contudo, foram as que aceitaram servir de modelos ao fotógrafo Jorge Almeida Lima para «trabalho de arte» sobre «estética e erotismo». Almeida Lima nascera no Brasil, dividiu a sua vida entre São Domingos de Benfica, Caldas da Rainha e uma quinta no Seixal – era poderoso proprietário agrícola, horticultor famoso, premiado criador de rosas e campeão de... esgrima e de caça. E talvez não houvesse melhor exemplo do que ele para marcar esse período da fotografia que era entendida como um... «bello ramo de sport». Nesse «sport photographico», para além do escândalo que causou ao fotografar mulheres de peitos descobertos, enroladas em plumas, outras integralmente nuas enrodilhadas em plemas – também ele se despiu para a sua própia câmara. Não, não foi só isso que lhe deu fama e «reclame» na fotografia – foram também os retratos de mendigos, velhos e ciganos e as reportagens mundanas das Caldas da Rainha no Inverno e nas Termas, das feiras de gado, do glamour dos palácios...
Do desejo de mulheres nos quartéis...
Desencantada pelo facto de a Liga Republicana das Mulheres com Maria Veleda à cabeça não considerar como reivindicação prioritária o voto feminino – Carolina Beatriz Ângelo demitiu-se da sua vice-presidência e com Ana de Castro Osório fundou em Maio de 1911 a Associação de Propaganda Feminista, a primeira organização assumidamente sufragista em Portugal. Não era só, contudo, a urna a sua batalha, a APF propôs igualmente o alargamento do serviço militar obrigatório às mulheres, defendendo que lhes fossem atribuídas a administração militar e os serviços de ambulância, de enfermagem e de cozinha nos quartéis; criou uma escola de enfermeiras; alertou para a injustiça das leis da família e do divórcio; exigiu salários iguais sempre que iguais fossem os trabalhos. Entretanto, Ana de Castro Osório foi para o Brasil – e na primeira carta que Carolina lhe enviou, revelou: «Fui assistir à abertura das Constituintes e digo-lhe que nunca em minha vida senti tamanha comoção. Sim, o que eu senti, o que todos sentimos só se experimenta uma vez na vida. Chorei, chorei e quando, envergonhada, limpava furtivamente as lágrimas reparei que a toda a gente, homens e mulheres, sucedia o mesmo. Todos choravam e se abraçavam enternecidamente. Por bastante tempo parecia que todos estavam delirantes, braços que se agitavam, vivas, palmas, lenços a acenarem, punhados de flores lançadas sobre os deputados, enfim, uma loucura. E o nosso Afonso Costa lá foi também, muito fraco e ainda doente mas não faltou!» Numa outra lamentou que a propósito da eleição do Presidente da República andassem os republicanos «todos à bulha, fazendo lembrar os monárquicos», aventou: «A não ser o nosso Afonso Costa o resto não vale dois caracóis». Nessa, de Julho de 1911, também largou, premonitório, o desabafo: «Tenho trabalhado muito, dias inteiros a discutir, a pensar, de maneira que tenho o cérebro em ebulição constante a que depois se seguem períodos de cansaço e fadiga como nunca tive. Se assim continuar só me restará a consolação de ter vivido muito em pouco tempo».
Pobres raparigas tuberculosas...
Seis meses depois, antes ainda de fazer 34 anos, Carolina Ângelo estava morta. De uma síncope cardíaca, a 3 de Outubro. Dias antes escrevera a última carta a Ana de Castro Osório, pelo meio, agitava-se, a mágoa de uma luta em vão: «Não imagina como me tenho sentido infeliz por não poder fazer nada em favor de duas pobres raparigas tuberculosas que tiveram a triste ideia de me consultar, ainda não se ter construído o sanatório para mulheres que tanto queremos. Creio que isso contribui muito para a minha doença. Uma delas é tão inteligente, tão feminista, tem umas ideias tão parecidas com as minhas que me deixa sempre com vontade de morrer, de deixar esta vida de amarguras e desenganos em que só os bons sofrem porque os maus não têm alma para sentir os infortúnios alheios». Em cima da secretária tinha um papel – a pedir enterro não religioso e sobre o corpo «flores verdes, muitas flores verdes» e a proibir que à filha de oito anos pusessem luto...
15 centímetros de peito em apenas 30 dias
No frenesim desses primeiros tempos da República andavam os jornais polvilhados de anúncios insólitos. Num prometia-se «cura absolutamente garantida de doenças do estômago, rins, fígado, dispepsia, bexiga, espinha dorsal e doenças de senhoras» através do Cinto Electro-Medical do Dr. Richardson - porque «assim como o relâmpago purifica o ar, a electricidade purifica o sangue». Noutro Margaret Mercier garantia a descoberta de «método simples e fácil que toda a mulher pode empregar em casa» - que lhe aumentava «15 centímetros do busto em apenas 30 dias», livrando-a da «situação horrível e humilhante de possuir um peito seco e chato». E através de 40 francos (mas em francos mesmo, escudos não...) dentro de carta enviada para o seu instituto em Paris, o Prof. Desbonnet dava truque para que «qualquer senhora cresça sete centímetros em três meses, sem droga e sem nenhum exercício perigoso de enforcamento». Raras continuavam, no entanto, a ser mulheres no desporto – as que havia eram sobretudo tenistas, que dos courts faziam espaços de mostra e elegância, e a explodir andava, então, um nome: Maria da Luz d´Orey, vencedora dos Campeonatos Internacionais de Cascais entre 1911 e 1915.
Mulheres a votar só com... Salazar
Com Beatriz Ângelo já só figura de história (e mesmo assim atirada para nota de rodapé...), a 3 de Julho de 1913, o Parlamento aprovou nova Lei Eleitoral – blindando o voto que se queria manter só para homens. A «cidadãos portugueses» acrescentou-se - «do sexo masculino». Desconcertante fora réplica de Afonso Costa a quem lhe sugerira que em vez de o apertar deveria alargar o número de recenseados: «Se quiserem fazer eleições com analfabetos, façam-nas os senhores porque eu quero fazê-las apenas com votos conscientes». E as mulheres tiveram de esperar por Salazar, por 1931 – para que lhes fosse concedido o direito de ir às urnas. Mesmo assim com restrições: apenas as que tivessem cursos secundários ou superiores, enquanto aos homens continuava a bastar saber ler e escrever...

Abola.pt 14:20 - 29-04-2010